quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A família na Itália


Na região da Toscana, próximo dos alpes, a pequena localidade de Monterotondo, é uma das "frazioni", algo como um distrito, da cidade de Castelnuovo di Garfagnana (6 mil habitantes), na província de Lucca. Trata-se de um vilarejo com meia dúzia de casas de pedra e uma capela, chamada Oratorio di Santo Spirito.

Os Fiori trabalhavam no cultivo de avelãs e fabricavam a chamada "farina dolce", muito usada para fazer pães, biscoitos e doces. Atualmente, os bucólicos campos do vilarejo são utilizados principalmente para a criação de gado, atividade que contribui para o sustento das famílias locais. A região também atrai um pequeno, mas crescente, turismo de aventura, impulsionado pela visitação de cavernas como a Grotta del Vento, que impressiona pela diversidade de formações subterrâneas, entre estalactites, pequenos lagos e poços verticais.

Localizada na região do Valle do Serchio, na confluência do rio Serchio (que segue até o Parque dos Alpes Apuanos) com o Turrite Secca, a cidade de Castelnuovo di Garfagnana é bem antiga. Em um antigo mapa da região, exposto no Museu do Vaticano, o local aparece identificado como “Caferonianu”. Desde aquele tempo, Castelnuovo di Garfagnana segue sendo um centro administrativo e comercial. Todas as terças-feiras, desde 1430, ocorre um mercado tradicional no centro da cidade. Os documentos históricos mais antigos sobre Castelnuovo datam do ano 740. No século IX, praticava-se a profissão de tabelião no interior do "Castello Nuovo", que deu nome à cidade. A construção da ponte remonta a este período e foi instalada para conectar o castelo com o distrito de Cellabarotti, conhecido hoje como Ponte Santa Lucia. Ainda no século XV, os garfagnini decidiram fazer parte do Ducado de Ferrara e Modena, na tentativa de fugir das constantes guerras entre Pisa e Lucca.

A Rocca di Castelnuovo, ou Rocca Ariostesca, é um dos principais símbolos da cidade. Sua origem remonta à Idade Média, e a fortaleza foi ampliada e modificada ao longo dos séculos, especialmente durante o domínio da Casa de Este, família que controlava a região da Garfagnana. A partir de 1451, Castelnuovo passou ao domínio dos Este, dentro do Ducado de Ferrara e, posteriormente, do Ducado de Modena e Reggio. A fortaleza passou a servir, posteriormente, como sede administrativa e residência dos governadores da província. O nome Rocca Ariostesca é uma homenagem ao poeta Ludovico Ariosto, que viveu no local entre 1522 e 1525, quando exerceu o cargo de comissário de Garfagnana a serviço dos Este.

Outro monumento de notável interesse é o Duomo San Pietro e San Paolo, reconstruído no início do século XVI sobre uma antiga igreja românica, com origens que remontam ao século XI. Embora seja chamado de catedral, é a igreja paroquial da cidade. Ao longo dos séculos, o edifício passou por diferentes reformas, incluindo intervenções barrocas e restaurações posteriores. No interior, encontra-se a “Pala di San Giuseppe”, uma peça em terracota da escola Della Robbia, em cuja base podem ser observados os brasões da comunidade de Castelnuovo: um leão azul sobre um campo amarelo.

A família Fiori viveu várias gerações no pequeno vilarejo de Monterotondo. Segundo o professor Giuliano Nesi, que presidiu na década de 1990 o Cominato Editoriale del Corriere di Garfagnana, a família é oriunda da cidade de Riccovolto, mais ao norte da Toscana, já na província de Modena. 

O século XIX foi marcado por uma intensa expulsão demográfica na Europa. O alto crescimento da população, ao lado do acelerado processo de industrialização, afetaram diretamente as oportunidades de emprego. Estima-se que, entre 1870 e 1970, em torno de 28 milhões de italianos emigraram (aproximadamente a metade da população da Itália) para países da Europa e América.

Um aspecto peculiar da imigração em massa italiana é que ela começou pouco depois da unificação da Itália, em 1871. Isso ajuda a explicar por que a própria identidade italiana como nação também foi sendo construída entre os imigrantes que chegaram ao Brasil. Até meados da década de 1920, pelo menos 1,5 milhão de italianos vieram para o país. Homens, mulheres e crianças que deixaram não apenas suas terras de origem, mas também uma vasta descendência, estimada em mais de 25 milhões de brasileiros — entre eles, os Fiori. Assim, a história da imigração italiana é também a história de famílias que atravessaram o oceano, reconstruíram suas vidas e ajudaram a formar uma parte importante da identidade brasileira.

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